Coworking: a arte de compartilhar espaços

August 9, 2018

 

Compartilhar. A essência que esse verbo carrega, de partilhar ou compartir algo com alguém, é colocada em prática, todos os dias, por muitos que já perceberam que o uso conjunto de equipamentos, espaços, estruturas e materiais torna o cotidiano mais sustentável, prático e econômico. São pessoas que se desapegaram do status de ter um escritório, uma máquina, uma sala de reuniões para, ao usar espaços compartilhados, dedicar mais de seu tempo e dinheiro ao que realmente interessa: seu negócio. O coworking cresceu, avançou, e hoje abrange muitas outras áreas onde o compartilhamento está ganhando espaço. 

 

O conceito de coworking não é novo, mas ainda é desconhecido por muita gente. Ele teria surgido ao final da década de 90, chegado a São Paulo em 2007 e ganhou espaço à medida em que aumentou o número de profissionais autônomos e em home office. Em linhas gerais, são espaços equipados para o trabalho, que oferecem toda a infraestrutura para sua realização e podem ser usados apenas o tempo necessário. Não há aluguel, contrato ou burocracia. Além destas facilidades, o ponto chave é o compartilhamento dos espaços físicos, de modo que profissionais de diferentes áreas passem a atuar juntos, o que aumenta bastante a possibilidade de troca de experiências. E quem vive o mercado de coworking garante: o network funciona de verdade e, muitas vezes, termina em ótimos negócios. "Eu achava que isso era só parte de um discurso, mas a gente vê, na prática, que sem forçar nada essa troca acontece", resume Márcio Bertasso, que há dois anos mantém o Complexo Mofo. 

 

Tudo começou quando Márcio instalou um estúdio musical na casa onde morava. "Com o tempo, junto com as pessoas que iam usar o estúdio vinham acompanhantes, que passaram a perguntar se podiam trabalhar por ali. Foi surgindo essa demanda", lembra Maria Paula Bertasso, irmã de Márcio, que o auxilia à frente do negócio. E a procura foi tanta que chegou uma hora em que Márcio foi para um apartamento e deixou a casa todinha para o empreendimento. Isso aconteceu há dois anos. De perfil despojado, o local segue à risca seu slogan --"você vai querer morar aqui" -- que nasceu da época em que era somente um estúdio. Junto com as salas privativas e estações de trabalho há também quintal, sofá, telão para assistir ao futebol ou jogar videogame. "Quanto mais espaço de convivência, melhor", avalia Márcio. 

 

Não é aluguel 

 

Quando questionados sobre a diferença de pagar por um espaço de coworking ou pela locação de uma sala ou escritório, todos os empresários da área são unânimes em apontar benefícios em relação a custos e, principalmente, comodidade. Quando se aluga uma sala, é só a sala e mais nada, resumem. E os coworkings atraem cada vez mais pessoas pois oferecem o pacote completo. Na prática, usar uma estação de trabalho num espaço deste tipo significa, por exemplo, contar com mesa, cadeira, internet, café, ar condicionado, impressoras e demais serviços -- no caso dos escritórios -- que custam para serem implantados e necessitam de manutenção. "A pessoa não gasta seu tempo para administrar essas coisas, gasta só no seu negócio. A única coisa que tem que trazer é seu equipamento pessoal, como notebook ou computador", resume Márcio. O conceito pode ser considerado quase que a terceirização da estrutura para o trabalho. 

 

Além de deixar de lado o aluguel -- e contrato, fiador e outras burocracias -- o coworking também inclui pagar menos. O custo, um dos pilares dos atrativos pelo formato, é cerca de 40% menor, se considerada a estação de trabalho individual, e por volta de 30% menor se comparado ao uso de salas privativas. Estas últimas acabam sendo escolhidas por quem tem uma pequena empresa. "Essa é a economia colaborativa. Nem sabíamos e já estávamos fazendo parte dela", comenta a empresária Tereza Steiner. Há cinco meses ela saiu de um espaço que ocupava em sua própria casa para instalar sua agência de publicidade, onde trabalham cinco pessoas, numa sala privativa. "É muito mais prático, a estrutura já está pronta, o custo é bem mais baixo", comentou, destacando que dificilmente conseguiria investir em montar um espaço como o que ocupa hoje. 

 

"A mensalidade que pago é mais baixa que um bom plano de internet que precisaria para trabalhar", conta João Correia, profissional da área de mídia indoor, que escolheu o coworking como forma de trabalho. Ele já conhecia o formato, chegou a usar estações de trabalho há quatro anos, até que optou por um escritório próprio. Dois anos depois, ele retornou ao coworking. "É difícil ter a disciplina para o home office. Preciso dessa rotina de sair para trabalhar. E essa integração com as outras pessoas é muito importante." Ele atua, num espaço compartilhado com arquitetos. E a diferença de atividades, reforça, só contribui.

 

Muito além do escritório 

 

Com o crescimento e maior visibilidade do coworking, muitos empresários perceberam nichos dentro desse mercado. E, a partir disso, começam a nascer espaços compartilhados de trabalho para quem é profissional de uma área específica, para quem quer costurar e precisa de uma máquina, realizar trabalhos de marcenaria mas não tem equipamentos, dentre outras possibilidades. O conceito é sempre o mesmo: ter acesso a um espaço organizado, pagar apenas pelo tempo que for usar -- seja apenas uma hora ou um mês inteiro -- e ter tudo o que precisa à mão. 

 

"O que a gente buscava era criar um espaço colaborativo para estimular o mercado", comenta a arquiteta Michele Dall Oglio, que em parceria com a também arquiteta Rafaela Camargo Lira criou o Clube dos Arquitetos. A ideia foi oferecer aos colegas de profissão um espaço onde a arquitetura fosse o destaque. Assim, construíram o coworking em contêineres, que hoje estão cercados por um gramado, ganharam balanços, cafeteria e sala de reuniões. 

 

Hobby ou trabalho 

 

Não é só para quem precisa trabalhar que o coworking pode ser uma "mão na roda". Outras atividades, até levadas como hobby por alguns, podem encontrar no formato um ótimo custo-benefício. "Por que não compartilhar também uma estrutura para costura", questionam os empresários Karin e Nilson Nunes, que no ano passado inauguraram um cosewing -- espaço onde as pessoas podem usar máquinas de costura, dos mais variados tipos, capacidades e modelos, pagando apenas pelo tempo que precisarem. Assim como os escritórios, o cosewing oferece o pacote completo: sala climatizada, mesa para corte e modelagem e uma estrutura confortável para quem quer realizar a atividade, como hobby ou profissão, mas ainda não teve condições de investir numa grade completa de equipamentos. 

 

Proprietária de uma loja virtual de venda de roupas para mãe e filha, a empresária Aline Lemos viu a necessidade de eliminar a mão-de-obra terceirizada e aprender costurar para que ela mesma possa fazer as peças. "Comprar todos os equipamentos é um investimento muito alto. Não é possível." Por uma hora os usuários do espaço desembolsam um valor correspondente a 0,25% do que seria necessário para adquirir um conjunto de máquinas. 

A designer Caroline Kunimura, está aprendendo a costurar e, apesar de ter máquina de uso doméstico, algumas vezes algum equipamento faz falta. Ou, como diz, a tranquilidade para desenvolver a atividade. "Em casa, com filhos, é difícil se concentrar. Aqui tenho toda a estrutura para trabalhar." 

 

Coworking: o mercado para espaços colaborativos está em crescimento 

 

Segundo dados do censo 2017 da Coworking Brasil, o volume de espaços de trabalho deste tipo mais que dobrou em 2017 em relação ao ano anterior. As 238 unidades existentes no País em 2015 subiram para 378 em 2016 e 810 no ano seguinte. Os espaços são bem conhecidos nas capitais e só agora começam a chamar atenção no interior -- apesar de já terem chegado há alguns anos. 

 

Há seis anos -- quando o coworking era algo completamente desconhecido em Sorocaba -- já havia empresários apostando que esse seria o futuro dos escritórios. Mas o negócio demorou a decolar e foi impulsionado também pela crise econômica do País. "Essa crise deu um choque de realidade nos profissionais, de perceberem que muitos estavam em grandes estruturas, com grandes custos, e não precisavam delas", avalia Rodrigo Amorim, da Company Working, que mantém dois imóveis com áreas de trabalho compartilhadas, voltadas principalmente para profissionais de negócios que querem, além de um local para trabalhar, uma sala de reunião equipada para fechar negócios, assim como serviços de recepção e até um endereço comercial para onde possam encaminhar suas correspondências. "Tínhamos quatro coworkings em Sorocaba em 2016, que aumentaram para nove em 2017." De uma carteira de 600 clientes, a empresa possui apenas 30 residentes e 80 mensalistas de serviços -- ou seja, a rotatividade, de usuários esporádicos, é grande. "Muitas pessoas que trabalham em home office usam as salas de reuniões para receber seus clientes. Além disso, grandes empresas também estão optando por manter seus funcionários, antes em home office, agora em coworking", pontua Rodrigo. 

 

"Quando estava começando a empreender, em 2013, não tinha como ter uma estrutura dessa num espaço fixo", conta o assessor de investimentos Wagner Drumond. Ele comenta que, para trabalhar, precisa somente ter acessível um bom sistema de internet e, por isso, resolveu se manter no coworking para focar suas energias e investimentos no seu negócio: ajudar as pessoas a aplicarem bem seu dinheiro. "Houve uma mudança de comportamento das pessoas. Antes, se queria ter. Hoje, se usa. Eu uso carros com o Uber, imóveis com o Airbnb e escritórios com o coworking."

 


Artigo originalmente publicado em: www.jornalcruzeiro.com.br

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

Posts Em Destaque

Meditação no espaço!

January 24, 2018

1/1
Please reload

Posts Recentes